Câmara
vota liberação dos bingos
14/09/09
- Cinco anos depois que uma medida provisória do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva proibiu o funcionamento das casas
de bingo e de máquinas caça-níquel no território
nacional, a Câmara finalmente deve votar um polêmico
projeto sobre o tema nesta quarta-feira (16), em reunião
da Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ).
Na
semana passada, o projeto entrou na pauta da CCJ, mas foi retirado
após o pedido de vista de vários deputados. Os favoráveis
à legalização dos bingos veem o jogo como
grande fonte de receita para a Receita Federal e importante gerador
de empregos. Do outro lado estão os que temem a legalização
de um mercado que já foi usado repetidas vezes para lavar
dinheiro do crime organizado.
O
relator do projeto na CCJ é Regis de Oliveira (PSC-SP),
que preparou voto favorável à legalização
dos bingos. Em seu parecer, Oliveira rejeita cinco proposições
que previam a proibição do jogo no país e
recomenda a aprovação de outras três, que
abordam as normas para as casas de bingo, a regulamentação
dos jogos eletrônicos e a destinação dos recursos
provenientes da tributação a que estariam sujeitos
os estabelecimentos.
“O
maior benefício da legalização seria evitar
a lavagem de dinheiro e a corrupção policial, que
mantém o jogo funcionando na clandestinidade”, disse
Oliveira a ÉPOCA. Segundo ele, a lavagem de dinheiro seria
evitada por meio da fiscalização, a cargo da Receita
Federal. De acordo com o projeto, a Receita teria poder para verificar
periodicamente as máquinas que fazem o sorteio e ficaria
responsável por fiscalizar a formação da
empresa dona da casa de bingo. Para Oliveira, isso impediria a
entrada de dinheiro sujo nas casas e o uso de “laranjas”.
“Se o projeto for aprovado, cada botequim voltará
a ter máquinas caça-níquel, que vão
tirar crianças da escola para ir jogar. Não há
nada de positivo na liberação”
Deputado
Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), contrário à
liberação dos bingos
“Não
podemos ficar insistindo de maneira hipócrita que o jogo
não existe. Temos até música de carnaval
falando disso, mas o jogo está na ilegalidade, dando margem
a todo tipo de picaretagem”
Deputado
Regis de Oliveira (PSC-SP), favorável à legalização
dos bingos
Régis de Oliveira defende ainda que, ao tirar o bingo da
ilegalidade, o governo teria mais recursos com a arrecadação
de impostos. O parecer do deputado prevê que as casas de
jogos paguem ao governo uma taxa mensal de R$ 20 mil para garantir
a fiscalização e repassem 17% da receita em royalties.
O dinheiro seria dividido para as áreas da saúde
(15%), esportes (1%) e cultura (1%). Outros argumentos dos deputados
favoráveis à legalização dos bingos
dizem respeito ao fomento do turismo no país e à
geração de empregos. Segundo um cálculo da
Força Sindical, presidida pelo deputado Paulinho da Força
(PDT-SP), também favorável à legalização,
os bingos podem gerar 320 mil postos de trabalho.
Para
os deputados contrários à liberação
do bingo, o argumento de que a fiscalização da Receita
Federal evitaria a lavagem de dinheiro não se sustenta.
“Quando esse tipo de jogo era considerado legal, vimos que
a fiscalização não funcionava”, disse
à ÉPOCA o deputado Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP).
Na opinião do deputado tucano, “os bingos se prestam
a lavar dinheiro criminoso e a tirar dinheiro de pessoas da terceira
idade e até de estudantes”.
Para Pannunzio, se o país pretende investir no jogo, poderia
seguir os moldes de Las Vegas, cidade construída no meio
do deserto de Nevada, nos Estados Unidos. “Isso concentraria
o jogo em poucos locais, com os investidores todos identificados”,
diz. “Da forma como o jogo se propagou no Brasil, ele saiu
completamente do controle do Estado”, diz.
Por
enquanto, governo e oposição não têm
posição definida sobre o tema e os deputados estão
votando de acordo com suas convicções. A expectativa
é de que o projeto seja aprovado na reunião de quarta-feira
(16) da CCJ. Depois, seguirá para o plenário da
Câmara, onde a liberação deve sofrer grande
resistência por parte da chamada bancada evangélica
e dos parlamentares ligados à Igreja Católica.
Em
2004, uma medida provisória assinada pelo presidente Luiz
Inácio Lula da Silva determinou o fechamento das casas
de bingo e a proibição de caça-níqueis
em todo o país, mas diversos estabelecimentos continuaram
funcionando graças a liminares de decisões judiciais.
Em maio de 2007, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou uma
súmula vinculante, mecanismo que obriga a repetição
de suas decisões em esferas inferiores, determinando que
somente a União poderia legislar sobre sistemas de consórcios
de sorteios, envolvendo loterias, bingos e quaisquer jogos. Isso
fez com que as decisões sobre o tema estabelecidas por
tribunais estaduais perdessem a validade.
Fonte:
Revista
Época
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